Entrevista com André Luís Teixeira Fernandes

Entrevista com André Luís Teixeira Fernandes

A Irrigazine conversou com o engenheiro agrôno¬mo, mestre em irrigação e drenagem , doutor em engenharia da água e solo, professor e pró-reitor de pesquisa, pós- graduação e extensão da UNIUBE – Universidade de Uberaba, André Luís Teixeira Fer¬nandes, certamente um dos maiores especialistas em café irrigado do país. O cur¬riculo dele é extenso, resu¬midamente podemos dizer que publicou vários artigos em periódicos especializa¬dos e mais de trezentos tra¬balhos em anais de eventos. Possui vários livros e capí¬tulos de livros publicados, participou de vários even¬tos no exterior e no Brasil, é membro da comissão or¬ganizadora da Fenicafé e do Congresso Brasileiro de Pesquisas Cafeeiras, além de uma enorme vivência prática nos cafezais do Cer¬rado Mineiro. O professor André Fernandes gentil¬mente atendeu a jornalista Bruna Fernandes, respon¬dendo, via email, várias questões sobre a irrigação do cafeeiro.

Qual o sistema de irri¬gação mais indicado para irrigar café?
Em função de aspectos relacionados ao consumo de energia, exigência e es¬cassez de mão de obra e ou¬tros aspectos operacionais, os sistemas mais viáveis de irrigação para o cafeeiro têm sido os que utilizam menos mão de obra. Mes¬mo nas regiões com relevo mais ondulado, por exem¬plo no Sul de MG, matas de MG e Espírito Santo, a mecanização das lavouras é cada vez mais necessida¬de, já que grande parte dos custos de produção do café nestas regiões é devido à mão de obra, principal¬mente da colheita. Quando a irrigação é automatizada e/ou mecanizada, como no caso dos pivôs centrais (para regiões mais planas) e gotejamento, os gastos com mão de obra são con-sideravelmente minimiza¬dos. Especificamente para os cafeicultores que ado-tam o pivô central, a meca¬nização de várias ativida¬des é ainda mais vantajosa com o uso do próprio equi¬pamento de irrigação para aplicação de fertilizantes, corretivos e defensivos com a água, permitindo desta forma a redução de pelo menos 10 operações tratorizadas/ano.

Que fatores o produ¬tor deve analisar antes de optar pela irrigação de seu cafezal?
O principal aspecto a ser considerado na ado¬ção da irrigação do café é o econômico. Os custos de implantação de uma lavoura de café, até a pri¬meira produção, chegam a R$ 20.000,00/hectare. Para o cafeeiro em produção, por ano, os gastos chegam a R$ 12.000,00/ha. O gran¬de problema é que, mesmo com todo este investimento em fertilizantes, defensi¬vos, práticas culturais, etc., se faltar água em fases fe¬nológicas cruciais para a produção, como a floração, frutificação e enchimento de grãos, a colheita é enor¬memente comprometida. A irrigação é uma garantia de produtividade em anos com deficit hídrico, anos estes cada vez mais comuns com a instabilidade climática que vivemos nas principais regiões cafeeiras.
Se convencido das van¬tagens de irrigar sua lavou¬ra, o produtor deve conhe¬cer os principais sistemas disponíveis, respeitar as le¬gislações ambientais para que o projeto seja viável (licenciamento ambiental, outorga) e realizar todas as análises e levantar todas as informações que cada sistema exige para que o empreendimento tenha su¬cesso, como levantamento planialtimétrico, quanti-dade e qualidade de água, fonte de energia, relevo, variedade e espaçamento do café, dentre outras.
Quanto custa para instalar um sistema de irrigação?
Os custos dos princi¬pais sistemas de irrigação para o cafeeiro são apre-sentados na Figura 1. Po¬de-se observar que, para irrigar a lavoura, o cafei-cultor tem opções que va¬riam de US$520 a US$2000 por hectare.

 

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Fig. 1 – Custos de instalação dos principais sistemas de irrigação do cafeeiro (Conversão: U$ 1,00 = R$

A irrigação é indicada para todas as regiões ca¬feeiras do Brasil?
O benefício do uso da irrigação é mais evidente em regiões quentes, onde a temperatura média men¬sal dificilmente fica abaixo dos 19º C, como as novas fronteiras do café – Bar¬reiras, Luiz Eduardo Ma¬galhães e Cocos, na Bahia, além do norte de Minas Gerais. Nestas regiões, predomina a cafeicultura empresarial, com irriga¬ção das lavouras com pi¬vôs centrais (praticamen¬te 95% das propriedades). Mas os casos de sucesso com a irrigação do cafe¬eiro são cada vez maiores em praticamente todas as regiões cafeeiras do Bra¬sil. No Sul de Minas Ge¬rais (maior região cafeeira do mundo), a irrigação do café com gotejamento tem crescido muito nos últimos anos. No Espírito Santo, principalmente na irriga¬ção de café conilon, o gote¬jamento e os microjets são predominantes, com gran¬des produtividades das la¬vouras com baixos custos de produção.

Quais os benefícios da irrigação para o café/ produtor?
A irrigação é uma tec¬nologia que melhora consi¬deravelmente a realidade dos produtores de café do Brasil, já que permite uma garantia de produtividade mesmo em anos de deficit hídrico e também, se o sis¬tema for eficiente, a apli-cação conjunta na água de fertilizantes minerais e or¬gânicos, defensivos, corre¬tivos, hormônios vegetais, dentre outros produtos, que levam a uma maior eficiência em todo o pro¬cesso produtivo do café.

Qual a área irrigada de café no Brasil e na re¬gião de Araguari?
A área de café irrigada no Brasil está na ordem de 300.000 hectares. Podemos aumentar consideravel¬mente esta área, se os sis¬temas forem corretamente dimensionados, se a legis¬lação ambiental permitir e se for adotado um bom programa de manejo da irrigação. Especificamente na região de Araguari, são 16.000 hectares de café, sendo 95% irrigados pelos diferentes sistemas.

Quais os tipos de irri¬gação mais usados para irrigar café?
Basicamente, os siste¬mas de irrigação para o ca¬feeiro podem ser divididos em dois grandes grupos: sistemas de irrigação com aplicação da água em área total e sistemas de irriga¬ção com aplicação locali¬zada da água, que molham apenas parte da área onde a cultura está implantada:

Pivô Central
Os primeiros pivôs cen¬trais utilizados para café foram adaptados de outras lavouras, com irrigação em área total, ou seja, tan¬to nas linhas de café quan¬to nas entrelinhas. Apesar de viabilizar a cafeicultu¬ra empresarial nas regiões de cerrado, o sistema pivô central “convencional” ainda apresentava o in-conveniente da aplicação de grandes volumes de água e com irrigação das entrelinhas do café, exi¬gindo controle mais inten¬sivo do mato.
A partir dessas dificul¬dades, surgiu uma inova¬ção, adaptada da irrigação de pomares de citros nos Estados Unidos, com emis¬sores capazes de irrigar somente a faixa de absor¬ção radicular das plantas de citros. A partir desta tecnologia, pesquisadores e consultores brasileiros desenvolveram uma técni-ca extremamente interes¬sante para a irrigação do cafeeiro com o pivô cen¬tral, com plantio realizado em círculo, com emissores localizados sobre as linhas de café, denominados LEPA, sigla que represen¬ta, em inglês, Low Energy Precision Aplication, ou seja: aplicação precisa de água com baixo consumo de energia, já que a pres¬são requerida é menor.
Neste sistema de plan¬tio circular (fig. 3), é co¬mum observar em áreas quentes, de alta insola¬ção, que na direção sudo¬este-nordeste, pode ocor¬rer escaldadura de parte da folhagem, devendo o produtor garantir que as exigências da cultura (nutrição, tratos fitossa¬nitários e culturais) estão sendo cumpridas.

Aspersão Convencional e em Malha
Existem diferentes ti¬pos de sistema de aspersão quanto à manipulação de seus componentes (tubos, conexões e aspersores), sendo eles: portátil, semi¬-fixo e fixo. Uma inovação que tem apresentado bons resultados na irrigação do cafeeiro é uma adaptação no sistema convencional

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Fig. 3 – Pivô central em plantio circular do cafeeiro.

 

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Fig. 2 – Pivô central convencional para café. 19

de aspersão, o sistema de aspersão em malha (os ra¬mais são conectados em sua extremidade para au¬mentar a uniformidade da pressão na rede hidráuli¬ca). Inicialmente utilizado para irrigação de pasta¬gens na região do Vale do Rio Doce (MG), o sistema tem como características principais: a) a utilização de tubos de PVC de baixo diâmetro, que constituem as linhas laterais, que se ligam “em malha” e são enterradas; b) baixo con¬sumo de energia, de 0,6 a 1,10 CV/ha; c) adaptação a qualquer formato de ter¬reno; d) possibilidade de divisão da área em várias subáreas; e) facilidade de operação e manutenção; f) possibilidade de fertir¬rigação; g) baixo custo de instalação e manutenção. Como limitações, este sistema apresenta: a) di¬ficuldade de automação; b) maior dependência de mão de obra; c) abertura de grande número de vale¬tas para acondicionamen¬to dos tubos em malha.

Autopropelido Convencional
Consiste num aspersor tipo canhão montado em um veículo equipado com mecanismo autopropulsor que por meio da movimen¬tação hidráulica de um carretel, enrola um cabo de aço capaz de deslocar o sistema ao longo da faixa de solo a ser irrigada.

Carretel Enrolador
Mais moderno que o anterior, irriga uma faixa de terra continuamente, pelo deslocamento de um canhão hidráulico monta¬do sobre rodas, conectado na extremidade de uma mangueira. Neste equipa¬mento, apenas a manguei¬ra é movimentada.

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Fig. 6 – Irrigação de café com aspersão em malha.

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Fig. 4 – Irrigação de café com carretel enrolador. 20

Tubos Perfurados a Laser ou “Tripa”
Trata-se de uma com¬binação de aspersão con¬vencional com irrigação localizada, onde jatos de água oriundos de peque¬nos orifícios (menores que 1 mm e perfurados a LASER na mangueira), ir¬rigam as faixas de solo. As “tripas” são colocadas pró¬ximas às saias dos cafeei¬ros (com apenas um orifí¬cio de saída) ou no meio da entrelinha (dois orifícios de saída).
Devido ao seu bai¬xo custo de implantação, esse sistema tem sido lar-gamente utilizado em al¬gumas regiões do Brasil, como Araguari, no Tri¬ângulo Mineiro. O maior inconveniente desse siste¬ma, apesar do baixo custo de implantação, é a ma¬nutenção, pois a grande maioria dos projetos é feita com “tripas móveis”, que requerem uma reposição anual da ordem de 30%. Alguns cafeicultores, para reduzirem esses custos, optaram por sistemas fixos (mangueiras disponíveis em toda área irrigada), mesmo com o maior custo de implantação.

Gotejamento
Efetua a irrigação sobre o solo, na área de maior absorção das raí¬zes do cafeeiro, com go¬tejadores de pequena va¬zão (1 a 10 litros/hora), porém, capazes de irrigar com alta frequência (até mesmo várias vezes ao dia), mantendo a umida¬de do solo na zona radi¬cular próxima à capaci¬dade de campo, condição que facilita a absorção de água pelo cafeeiro.
A água é pressuriza¬da pelo sistema de bom¬beamento, e, antes que chegue aos gotejadores, passa por um sistema de filtragem, prática essen¬cial para o bom funcio¬namento desse sistema. Apresenta como princi¬pais vantagens: a) alta uniformidade de aplica¬ção de água, de 90 a 95%; b) redução de gastos de água, energia e mão de obra; c) aplicação eficien¬te de defensivos e fertili-zantes; d) possibilidade de automação total do sistema. Como desvanta¬gens, apresenta: a) alto custo de implantação; b) riscos de entupimen¬to de emissores se mal manejados; c) concentra¬ção do sistema radicular em apenas parte do solo, onde se forma o “bulbo molhado” do gotejador; d) possíveis danos e avarias das linhas laterais por trabalhadores (enxadas) e animais (roedores).
Para evitar problemas de vandalismo, alguns produtores têm adotado a técnica de enterrar os emissores, ação que deve ser cuidadosamente pla¬nejada, pois a colocação de gotejadores muito distantes da maior con¬centração de raízes do cafeeiro pode provocar reduções expressivas de desenvolvimento vegetativo e da pro¬dutividade do cafeei¬ro. Também requer a aplicação periódica de produtos capazes de evitar a intrusão de ra¬ízes nos gotejadores.
Como a qualidade da água pode afetar o funcionamento de go¬tejadores, alguns pro¬dutores em regiões de água com alto teor de ferro, tem optado por instalar na manguei¬ra, sob a copa do cafe¬eiro, pequenos sprays, denominados micro¬jets (fig. 8).

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Fig. 5 – Irrigação de café com tubos perfurados a laser (tripa).

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Fig. 7 – Irrigação por gotejamento em café. 21

Quais os desafios para o crescimento da área ir¬rigada com café no Brasil?
Os principais desa¬fios são os relacionados à disponibilidade de água e energia nas proprieda¬des rurais. Em algumas regiões, devido à instabi¬lidade climática e à falta de incentivo à reservação de água nas proprieda¬des, mesmo com a vontade dos cafeicultores em irri¬gar suas lavouras, a baixa disponibilidade de água e também a falta de energia são fatores impeditivos à implantação destes novos empreendimentos. Tam¬bém é um desafio enorme seguir as legislações am¬bientais. O produtor, na maioria dos casos, deseja estar dentro da lei, mas seus pedidos de outorga e licenciamento, em alguns estados, chegam a demo¬rar cinco anos para se¬rem analisados e, às ve¬zes, são negados.
Outro problema é que no Brasil, ainda não exis¬te a política da reserva¬ção de água. Ainda não conseguimos convencer os governantes e legis¬ladores ambientais que somos um país com ex¬trema riqueza de recur¬sos hídricos superficiais e subterrâneos, que po¬dem, se bem manejados, serem utilizados para a produção de alimentos. Também não sabemos aproveitar a precipita¬ção nas áreas rurais. Na média do país, chove 1750 mm/ano, mas este grande volume não tem sido armazenado nas propriedades para ser utilizado para a irriga¬ção das lavouras anuais e perenes.

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Fig. 8 – Irrigação por microjets em café.