Irrigação localizada aumenta produtividade e longevidade dos canaviais,

Irrigação localizada aumenta produtividade e longevidade dos canaviais,

Engenheiro agrônomo, formado pela ESALQ, com especialização em Manejo de Solos Tropicais e pós-graduação em Gestão do Agronegócio, com ênfase no setor sucroalcooleiro, Daniel Pedroso é coordenador agronômico da Netafim Brasil desde 2006 e atua com foco no setor sucroalcooleiro. Ele falou à Irrigazine sobre a cana-de-açúcar irrigada. Sobre como os usineiros e produtores começam a perceber as vantagens da irrigação para a cultura, depois da anormalidade na precipitação de chuvas nos últimos anos, nas regiões produtoras. Fez uma projeção das possibilidades de crescimento da técnica de irrigação no setor e apontou dificuldades. Um dos primeiros, segundo Daniel é “quebrar o paradigma de que a cultura da cana-de-açúcar aguenta desaforo”.
Dependendo do sistema de irrigação o valor inicial a ser investido pode ser maior ou menor, mas é diluído de acordo com os anos. Para o gotejamento, o retorno é entre 2,5 – 3 anos e a longevidade do canavial salta para 10 anos.

– Qual a porcentagem de plantações de cana irrigadas hoje, aqui no Brasil?
Com água, a irrigação no Brasil em cana-de-açúcar está estimada em 3,0% da área total.
– Cana-de-Açúcar não é uma cultura, tradicionalmente irrigada, no Brasil. Em que momento o produtor e as usinas começaram a se voltar para a prática aqui no país?
Primeiramente, dividiremos a região canavieiras em: Nordeste, onde já existe a tradição de irrigação e Centro sul, a qual não existe a tradição de irrigação.
Na região nordeste a cultura da irrigação já é adotada com normalidade entre as usinas e produtores, no entanto, na região centro sul essa prática começou a ser mais focada nos últimos 4/5 anos, com as anormalidades climáticas que ocorreram.
Se observarmos o regime de chuvas nesses últimos anos, a distribuição e até mesmo a quantidade foi totalmente anormal o que levou a grande quebra de produtividade e também no planejamento agrícola das usinas/fornecedores. Visando recuperar essa produtividade e bem como ter uma garantia de produção, as usinas/fornecedores vêm adotando a prática da irrigação em seus canaviais.
– É possível avaliar o potencial de expansão da atividade irrigada na cultura da cana-de-açúcar?
A área cultivada com cana-de-açúcar no País é aproximadamente 9,5 milhões de hectares, no entanto, nem todas as regiões possuem fontes de água para irrigação. Acreditamos em um potencial de 5 a 6 milhões de hectares para irrigação.

– Quais os desafios para concretizar este potencial?
Primeiramente conscientizar os usineiros/fornecedores e apresentar os benefícios da irrigação. Como o setor é altamente tradicionalista é necessário quebrar o paradigma que a cana-de-açúcar é uma cultura que aguenta desaforo, o que não é verdade, pois produzimos 1/3 do potencial genético da planta. O próximo passo é mostrar ao produtor/usina os benefícios da irrigação, como por exemplo, reduzir os custos de produção (R$/ton de cana) utilizando um sistema de irrigação. E por último, provar qual é o sistema de irrigação mais eficiente que pode aumentar a produtividade, facilitar o uso e redução dos custos.

– Os usineiros, o produtor, em geral, vem necessidade desta tecnologia, ou apenas nos momentos de crise – hídrica, por exemplo?
Focando um pouco na irrigação localizada por gotejamento enterrado, essa tecnologia vem aumentando a sua participação antes mesmo em se falar da crise hídrica. Gosto de lembrar que antigamente o gotejamento não era nem citado nas reuniões técnicas, mas isso mudou no decorrer dos anos, onde esse tema começou a ser citado e hoje com o advento da crise hídrica, passou a ser protagonista.

– Existe uma estimativa de que, nas culturas em geral, cada hectare irrigado equivale a 3 de sequeiro, em termos de produção física e até mais do que isso em produtividade econômica. Qual é esta relação na cultura da cana-de-açúcar?
Isso depende muito da região e do ambiente de produção em que está a cultura. Em média o gotejamento eleva a produtividade (TCH) em no mínimo 50%, além de aumentar a longevidade de 5 para 10 anos. Fazendo os cálculos podemos dizer que a relação passa a ser 3 a 4. Temos casos em que o histórico da área para cana de sequeiro é de 50 ton/ha em apenas 3 anos de ciclo. Como cliente adotou a sistema de irrigação por gotejamento essa média subiu para 102 ton/ha e já está no sexto corte, sendo que a estimativa é a de que chegue mais de 10 cortes mantendo uma média de 100 ton/ha.

– Um dos fatores que impulsionam as mudanças são as imposições econômicas. Que elementos estão movendo as usinas e produtores nesta mudança de comportamento em relação à irrigação?
Garantir que haverá uma produção agrícola. Todos os anos, as Usinas e fornecedores fazem o planejamento da safra, ou seja, determina quando a cultura será plantada, os momentos que serão realizadas as adubações e colheita. Para a cana, não importa se está chovendo ou não, após plantada ela vai iniciar seu ciclo fisiológico normal (germinar – perfilhar – crescer – maturar), se por acaso faltar algum elemento essencial para o seu desenvolvimento, como a água, em alguma dessas fases a planta irá sentir e vai acusar na sua produção (quebra de safra). E isso pode implicar diretamente no fluxo de caixa da empresa, pois não haverá matéria-prima suficiente para alimentar a indústria e com isso, rodará com sua capacidade muito afetada.
Outro elemento é reduzir os custos de produção. Por exemplo, quando se faz um planejamento agrícola é determinado uma produtividade alvo a ser atingida e todos os investimentos como adubação, mão de obra, maquinário e etc.. Se produz abaixo dessa produção alvo, isso começa a encarecer os custos e produção (R$/ton produzida) afetando o lucro da usina/fornecedor. Com o uso da irrigação temos o que chamamos de verticalização na produção, ou seja, produzir mais por hectare e isso leva a diminuição nos custos de produção.

– Em relação ao custo de implantação, é viável a irrigação em cana-de açúcar sempre? Ou em quais ocasiões, regiões?

Depende das características edafoclimáticas da região. Principalmente no quesito quantidade e o mais importante, distribuição das chuvas. Em regiões com boa precipitação e distribuição o payback pode demorar muito a acontecer, e nas regiões com pouca chuva ou em que elas estão concentradas em poucos meses, o payback é muito mais rápido. Em média para a irrigação localizada por gotejamento está em 2,5 a 3,0 anos, apenas lembrando que com esse tipo de irrigação a longevidade do canavial salta para 10 anos.

– Quais fatores positivos podem ser apresentados para justificar irrigação em cana-de-açúcar?
Podemos citar o aumento de produtividade, de longevidade, redução dos custos de produção e de mão de obra, eficiência na adubação (nutrirrigação) e mitigação dos riscos de produção.

-Que tipos de sistemas de irrigação podem ser utilizados nos canaviais?
Temos alguns sistemas que imitam as chuvas como os autopropelidos (canhões), alas móveis e o pivô, e também temos sistemas que irrigam diretamente as raízes das plantas como o gotejamento. Cada um dos sistemas tem suas características e eficiências de aplicação de água. Por exemplo, estimam que os canhões têm eficiência de uso de água em torno de 60 a 65 %, no entanto as alas móveis estão na faixa de 70 a 75%, o pivô em 80 a 85% e o gotejamento em torno de 95 a 98% de eficiência no uso da água. E essa eficiência está ligada não somente as características dos equipamentos, mas também nos aspectos da irrigação, por exemplo, no caso dos equipamentos que imitam as chuvas, temos perdas causadas pela ação dos ventos, por evaporação, pelo efeito “ guarda-chuva” das folhagens. E quanto no gotejamento, por estar enterrado e muito próximo ao sistema radicular (onde a planta absorve água), não há essas perdas.